20/08/2025

HUSTLER - A ILHA - CAPÍTULO 03

 — A coisa aqui é séria, Hustler — murmurou Billy, ainda segurando a borda do quadro como se temesse que ele desaparecesse. Não respondi logo. O ar no quarto parecia ter engrossado, como se a umidade da floresta tivesse encontrado um caminho por baixo da porta, subindo pelas paredes e se instalando nos pulmões. 

A luz do fim da tarde escorria pela janela em faixas tortas, iluminando poeira suspensa no ar — partículas que dançavam como se obedecessem a um ritmo só seu.

— Ele não pareceu assustado — falei por fim, a voz mais baixa do que pretendia. — Parecia... avisado.

Billy virou o rosto para mim, os olhos estreitos. Ele sempre enxergava o mundo como um quebra-cabeça de sinais e coincidências. Eu, não. Eu enxergava o que estava à frente: tábuas rangendo, um gerente com camisa errada para o clima, e um quarto que cheirava a segredo e mofo.

— O Curupira vira os pés pra trás pra confundir quem o persegue — disse ele, como se estivesse lendo um livro invisível. — Mas por que todo mundo aqui parece estar fugindo dele... ou dele mesmo?

Antes que eu pudesse responder, um som cortou o silêncio: três batidas secas na parede, vindas do quarto ao lado. Não foi um toque casual. Foi ritmado. Um código. Uma chamada.

Fiquei imóvel. Billy soltou o quadro e deu um passo atrás.

— Você ouviu?

— Ouvi — respondi, mas já não tinha certeza se queria ter ouvido.

A porta rangeu de novo. Não foi aberta, mas sentimos a presença. Algo do lado de fora. Um leve movimento na fresta sob a soleira, como se uma sombra tivesse passado e parado ali, imóvel.

— Assim que estiverem acomodados — dissera Vargas — preciso falar com vocês. É urgente.

Mas quanto tempo fazia? Dez minutos? Quinze? E por que ele não voltava?

— Vamos esperar — sussurrei, mas já estava de pé, aproximando-me da janela. A mata cerrada se estendia além do vidro rachado, densa, verde-escura, como se engolisse a luz. Nada se movia. Nada, exceto um galho que balançou — sozinho.

— Hustler — chamou Billy, a voz trêmula pela primeira vez desde que saímos da cidade. — O quadro... mudou.

Virei-me devagar.

O desenho do Curupira continuava na parede. Mas agora os pés virados para trás estavam... sujos. Marcas de lama escorriam da tela, como se tivessem sido pisadas recentemente. E os olhos — antes apenas dois pontos escuros — agora refletiam algo. Um brilho. Um reflexo de fogo.

— Isso não é possível — disse Billy, mas não se afastou. Ao contrário, deu um passo à frente, como se aterrorizado e fascinado ao mesmo tempo.

— Não encoste nele — ordenei.

Mas foi tarde.

Ele tocou a tela com a ponta dos dedos.

E o quarto inteiro estremeceu.

Não foi um tremor de terra. Foi como se o tempo tivesse dado um salto, um piscar de olhos que durou mais do que deveria. A luz se apagou. A janela escureceu. E, por um instante — apenas um —, o cheiro de mofo desapareceu, substituído por cinzas, fumaça e algo doce, como flores apodrecendo.

Então, do corredor, veio o som de passos.

Mas não eram passos normais.

Eram desiguais. Um pé pisava para frente. O outro, para trás.

— Vargas? — chamei, mas minha voz soou estranha, abafada, como se viesse de longe.

Ninguém respondeu.

Os passos pararam diante da porta.

E então, uma voz — não de Vargas, não de ninguém que já tivéssemos ouvido — sussurrou, vinda de todos os lados ao mesmo tempo:

— Vocês não deveriam ter tocado.

O trinco da porta tremeu.

Mas não foi girado.

Foi empurrado para baixo, como se algo estivesse se espremendo por baixo, entrando devagar, com paciência infinita.

Billy recuou até a cama. Eu fiquei onde estava, olhos fixos na fresta sob a porta.

E então, vi.

Uma sombra se esticava pelo chão. Mas não seguia a luz da janela.

Ela se movia sozinha.

— Hustler — sussurrou Billy, a voz quase inaudível. — Ele não está aqui pra proteger a floresta...

Engoli em seco.

— Ele está aqui pra proteger ela de nós.

No teto, a pintura do Curupira sorria. E seus olhos, agora, estavam abertos.

 CONTINUA...

POR ALCÍ SANTOS

13/08/2025

VINGADOR NEGRO - VERDADE DE AÇO - CAPÍTULO 2 DE 10

O xerife Carl McCade, um homem na casa dos quarenta anos com aparência de cinquenta, tinha acordado irritado. Ele já era um sujeito irritado por natureza, seja porque tivera que tomar as responsabilidades de casa logo cedo por conta da morte de seu pai ou seja porque estava perdendo as estribeiras desde que se tornara o xerife de Austin. Indígenas, mexicanos, americanos e a guerra de etnia eterna, além do mascarado justiceiro agindo por conta própria. De um lado, o prefeito e os nobres cobrando a captura do mascarado, não por justiça, sim, McCade sabia que aqueles homens só estavam pensando em si mesmos. Enquanto isso, o povo mais pobre não buscava mais a ajuda da lei e sim de seu salvador vestido de negro.

A situação só piorara quando Jake Callahan, um bom jovem, mas emocionado por confrontos, trouxera uma dúzia de mexicanos para o escritório. Junto com Callahan, D. Hernandes e dois de seus capangas afirmando que os mexicanos haviam roubado bois de sua fazenda — que não ironicamente ficava ao lado do terreno dos mexicanos.

— Nós flagramos o roubo — Hernandes afirmou com o peito estufado e autoridade na voz. — Pergunte ao Jake.

Jake, como sempre, não demorou a confirmar:

— Escondidos em uma caverna por um arbusto.

— Señor, sequer sabíamos da existência de tal caverna em nosso terreno — um dos mexicanos comentou.

— Fique calado! Escória maldita.

— Ei, Hernandes, vamos com calma, eu estou há trinta anos com uma dor de cabeça dos infernos — o xerife falou.

— Senhor Hernandes, caro xerife. Gostaria de não perder os modos de etiqueta.

— Então não perca os modos com os mexicanos também, afinal, temos aqui uma acusação séria que precisava ser investigada.

— Investigada? — o homem quase perdeu as boas maneiras em seus trajes elegantes. — Não ouviu Jake e meus homens dizendo que encontraram meus bois no flagrante?!

McCade coçou os olhos de forma teatral.

— Como explicar…? Todos têm direito a uma investigação e a um julgamento justo.

— Até os mexicanos? — dessa vez foi Jake quem indagou.

— Se eles são seres racionais e pensantes, então de acordo com as leis desse país e dentro da minha jurisdição, sim. E nada será dito até que eu lhes chame para interrogatório.

— O senhor também quer nos interrogar, xerife? — um dos capangas de Hernandes pareceu indignado.

— Meu caro, não irei explicar como fazer meu trabalho, mas se quer fazer as coisas do seu jeito, sugiro que vá se tornar xerife.

— Já tinha ouvido falar do seu modo rude, mas nunca pensei ser verdade — Hernandes rebateu.

— Desculpe meu humor, D. Hernandes, mas eu não tenho tempo para tomar chá à tarde e contabilizar meus dólares no fim de semana. Tudo o que contabilizo são pessoas me enchendo a paciência e criando caso quando um boi sai de uma fazenda e aparece em outra.

Hernandes colocou a mão na cintura e disse:

— É isso que o senhor pensa?

— Essa seria a primeira dedução de qualquer pessoa sem segundas intenções. Mas, por favor, me permita terminar a minha investigação e depois terei prazer em dar meu veredito.

D. Hernandes e seus capangas deram de ombros e saíram do escritório, apenas Jake e os mexicanos permaneceram.

— Mas McCade, eu encontrei…

— Jake, por favor, me poupe de suas tolices.

O jovem baixou a cabeça com a cabeleira loura.

— Por todos os diabos, agora eu tenho que arrumar essa bagunça.


CONTINUA...


POR NAOR WILLIANS

NOVO!

HUSTLER - A ILHA - CAPÍTULO 10

Finalmente, ao amanhecer, o enigma se desvendou. Um compartimento secreto na pedra se abriu, revelando não ouro ou joias, mas uma essência l...