22/09/2025

HUSTLER - A ILHA - CAPÍTULO 04

O ar pareceu se dobrar sobre si mesmo quando os olhos do Curupira se abriram. Antes que Billy pudesse reagir, senti a pressão de mãos invisíveis me arrancando do quarto. Não houve grito. Só o som abafado de raízes se enroscando em volta do meu corpo, puxando-me para dentro da escuridão.

Quando a luz voltou, já não havia paredes. Estava em um círculo aberto no coração da mata, iluminado por tochas que ardiam sem consumir nada. Ao redor, dez figuras me observavam. Nenhuma delas era humana.

Eram as dez maiores lendas da Amazônia, reunidas como um tribunal antigo:

Curupira, de olhos faiscantes e pés virados.

Iara, seus cabelos escorrendo como rio noturno, cantando sem voz.

Boitatá, serpente de fogo, ondulando em espirais de brasas.

Mapinguari, gigante de um só olho e boca no estômago.

Matinta Perera, velha encurvada, o sopro dela trazendo o frio.

Boto cor-de-rosa, com seus olhos humanos demais.

Cobra-Grande, enrolada nos limites do círculo, respirando pesado.

Anhangá, o cervo fantasma de olhos em chamas.

Caboclo d’Água, gotejando no chão seco.

Mãe do Mato, coberta de folhas vivas, que murmuravam como vento.

O Curupira tomou a palavra, voz grave como tronco rompendo:
— Trouxe Hustler para ouvir o que se esqueceu. Há uma decisão a ser feita: destruir quem nos esquece... ou destruir quem nos inventou.

O círculo se moveu em murmúrios. Eu entendi. Não eram só humanos que estavam em julgamento, mas também as próprias lendas que se corromperam, usadas em histórias distorcidas.

Iara inclinou-se, apontando para mim com um dedo de água:
— Eles profanam o rio, cantam meu nome em festas de mentira, e riem.
Boitatá rugiu:
— E ateiam fogo na floresta, como se quisessem me convocar.

Foi então que a Matinta Perera, com sua voz de ferro e areia, se aproximou de mim.

— Há um humano suspeito, Curupira. Ele atravessou a mata com carvão nos bolsos e deixou símbolos na pedra. Um nome ele riscou, repetidas vezes... “Vargas”.

O nome caiu no círculo como pedra no lago. Billy não estava ali, mas eu podia sentir o medo dele dentro de mim.

O Curupira olhou para mim, olhos de fogo refletindo todos os outros.
— Hustler, você os trouxe. Cabe a você decidir: mostrar o culpado... ou pagar por ele.

As tochas arderam mais forte. E ao fundo, no vento, uma batida ritmada ecoou — três toques secos. O mesmo código da parede.

CONTINUA...

POR ALCÍ SANTOS

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